Criança havia recebido alta e tomava última medicação quando morreu. Mãe acusa médico de negligência


A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo investiga a morte de um bebê de sete meses no Hospital do Campo Limpo, na Zona Sul da capital paulista. Nicollas Protasio da Silva já havia tido alta e recebia a última medicação antes de deixar a unidade hospitalar quando passou mal, sofreu parada cardiorrespiratória e morreu.

O caso ocorreu em 22 de julho. De acordo com a mãe do bebê, Elaine Cristina Protasio da Silva, de 36 anos, a morte foi causada por um erro do médico, que teria receitado a medicação intravascular equivocadamente, ou da enfermagem, que teria confundido as seringas na hora da aplicação. O hospital nega e diz que tudo foi feito de "forma correta".

Nicollas foi levado ao Hospital do Campo Limpo pela mãe, no dia 19, devido a um suposto resfriado que demorava a passar. Lá, foi diagnosticado com bronquiolite (uma infecção infantil comum que acomete os pulmões) e acabou internado por três dias. No dia 22, já recuperado, ele recebeu alta médica, com a orientação de realizar apenas uma última medicação no hospital, do corticóide Metilprednisolona, para então continuar o tratamento em casa.

Versões diferentes
As semelhanças das histórias contadas pela mãe de Nicollas e pelo médico Karl Rosenfeld, de 58 anos, que atendeu a criança, param por aí. Elaine conta que, assim que o medicamento foi ministrado pela enfermeira, o filho "ficou roxo".

"O médico estava de frente, olhando junto com a enfermeira. Foi quando ele disse que o Nicollas tava fazendo birra e pediu pra eu virar ele de bruços. Um minuto depois, quando desvirei, ele já estava pálido. O médico viu e voltou pra mesa dele. Eu falei pra enfermeira que ele não tava respirando direito, que a barriga não tava mexendo. Uma outra mãe gritou que tinha um bebê passando mal e só aí que o médico veio e tirou ele dos meus braços", disse ela.

A mãe afirma que o médico colocou a criança em uma cama e começou os procedimentos de reanimação cardiorrespiratória. Depois de alguns minutos de massagem cardíaca, sem sucesso, ele teria saído da sala correndo com a criança no colo. "Em seguida já veio a psicóloga e a assistente social e eu já sabia que meu filho estava morto".

Elaine relata que foi levada até uma sala, onde, duas horas depois, Rosenfeld reapareceu para informar que Nicollas estava morto. De acordo com ela, o pediatra segurou em sua mão e pediu desculpas. "Falou pra eu perdoar, disse que assumia toda a responsabilidade, que nunca mais ia ter uma noite tranquila ou conseguir colocar a cabeça no travesseiro. Eu sei que ele errou".

Médico nega culpa
O médico Karl Rosenfeld, que atua como pediatra há 35 anos e há mais de 20 no Hospital do Campo Limpo, nega que teve alguma culpa ou que, em algum momento, tenha admitido um erro no caso: "Não assumi nenhuma responsabilidade porque eu não tenho". Ele ressaltou que em sua carreira nunca cometeu "erros que pudessem expor alguém a risco".

Segundo o médico, o bebê já vinha tomando a mesma medicação desde que foi internado no hospital e a última dose, administrada pouco antes da morte, foi inclusive a menor de todas, já que o tratamento da bronquiolite com metilprednisolona é regressivo em termos de quantidade. Ou seja, em cada nova aplicação há uma diminuição da dose.

O pediatra disse que tampouco foi negligente quando a criança apresentou os primeiros sinais de complicação. Ele afirmou que entendeu ter havido uma "recuperação" depois que o bebê foi colocado de bruços e que, portanto, já "estava tudo bem". "Todo mundo teve esta percepção de que estava tudo bem. Fui então tratar da medicação de outro paciente ou explicar algo para a aluna residente quando a enfermeira gritou que a criança estava parada".

Rosenfeld contou que ainda teve a preocupação de checar os prontuários dos outros pacientes que eram atendidos na mesma hora que Nicollas para verificar se, por confusão, ele havia tomado a medicação errada. Porém, de acordo com ele, nenhum medicamento com potencial para causar reações tão adversas estava sendo ministrado naquele momento.

Processo
A causa da morte de Nicollas ainda é desconhecida. Foi classificada como "súbita", decorrente de parada cardiorrespiratória. O corpo foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) do Hospital das Clínicas, que emitirá um laudo apontando o motivo do falecimento repentino da criança que, segundo a mãe, "já estava bem, brincando e sorrindo". Ele foi enterrado no sábado (23), no Parque das Cerejeiras, na Zona Sul da capital.

Elaine disse que pretende processar o médico. "Eu não quero me promover, nem ganhar nada. Só quero a cassação dele. Não estou fazendo isso nem por mim, porque meu filho já está morto, mas pelas outras crianças que passam por hospital público, pra que isso não aconteça de novo com ninguém".

A mãe também criticou a postura do hospital. De acordo com ela, depois de ter visto o corpo do filho, a administração da unidade em nenhum momento a procurou. "Nem ligaram, nem quiseram saber. Simplesmente fui colocada pra fora do hospital, já foram me acompanhando pra fora. Não saí com papel nenhum. Não fui nem eu que arrumei a bolsa do Nicollas. Eles enfiaram tudo pra dentro e me entregaram".

O pediatra Rosenfeld contou que até compreende a revolta da mãe. "É muito triste. Eu entendo perfeitamente a posição. A criança faleceu no colo dela. Ela tá precisando arrumar culpados". Segundo ele, Elaine deixou o hospital na sexta confortada, mas depois retornou mais agressiva. "É a percepção que eu tive. Ela precisava ser consolada e talvez o pessoal que a consolou disse que ela tinha de procurar um culpado".

O advogado Ademar Gomes contratado pela família, vai pedir abertura de processo administrativo junto ao Conselho Regional de Medicina e ao Conselho Regional de Enfermagem para apurar responsabilidade profissional, além do processo por dano moral e material contra o Hospital e os profissionais. Segundo Gomes, os mesmos deverão responder por homicídio doloso, pois houve o dolo eventual.

Prefeitura apura
A Secretaria Municipal de Saúde informou, por nota, que todas as mortes de crianças menores de um ano são investigadas por uma junta de profissionais. Segundo a pasta, neste processo são levantados todos os procedimentos realizados pela equipe de atendimento e também o histórico clínico para esclarecer as causas das mortes.

O Hospital Municipal do Campo Limpo informou que avaliou o prontuário do paciente e constatou que ele foi medicado adequadamente para a doença que foi diagnosticada e que as doses e diluições dos medicamentos foram administradas de forma correta. A direção do hospital ressaltou, entretanto, que a análise do caso continua.

Fonte: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/08/prefeitura-investiga-morte-suspeita-de-bebe-no-hospital-do-campo-limpo.html



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